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O ESTATUTO DA HISTÓRIA E DA TEORIA NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO CIDADÃO ARQUITETO

Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

Orientador: Stéphane Huchet

Pesquisador: Junia Mortimer

Abstract

Teaching history of architecture according to the disciplinary structure which is prevalent today in most of architectural schools worldwide is symptomatic of a critical position which undertakes an architectural design as an original creation without precedents in history. This notion of architectural design detaches architectural objects from a hall of influences and isolates every spatial intervention from the process of accumulation that probably led these interventions to existence (cf. Michl, Jan. Design as redesign). Marginalized and marginalizing, the disciplines on architectural history are usually thought as isolated boxes which cover the main periods of history in a chronological perspective. It’s very uncommon to see any approximation of these modules with the rest of the curriculum activities and we hardly ever see any proposition of setting off the learning of this subject out from a contemporary spatial problem (thematic studies). Such a fixed and non-integrative structure, repeated throughout the formation process of a student, ends up by reinforcing the myth of architectural design as an unprecedented creation besides it compromising the development of scientific research and the improvement of knowledge on the area. Considering this scenario on the scientific research and teaching of history of architecture, this research project aims to investigate epistemological gaps on curricular structures worldwide adopted in architectural schools, concerning especially history of architecture. The goal is to put in place theoretical discussions on the subject and to propose alternative models in which those fractures could be corrected or at least have their effects minimized. By comparing contemporary curricular models, focusing on the area of architectural history, I intend to elaborate new models which would reconsider the place of past on thinking and conceiving architectural design.

Resumo

O ensino de história da arte, da cidade e da arquitetura dentro das estruturas disciplinares, modelo este que prevalece na maioria das escolas de arquitetura do mundo, é sintomático de uma postura crítica que entende a criação arquitetônica como uma criação original e sem precedentes na história. Essa concepção da criação arquitetônica desvincula o objeto arquitetônico de um hall de influências e isola toda intervenção espacial do processo de acumulação que provavelmente originou essas intervenções (cf. Michl, Jan. Design as redesign). Marginalizadas e marginalizantes, as disciplinas no campo da história e teoria da arte, da arquitetura e da cidade são geralmente estruturadas em caixas disciplinares isoladas que pretendem cobrir os principais períodos da história numa perspectiva cronológica. É raro constatar qualquer tipo de aproximação desses módulos com o restante das atividades curriculares e mais raro ainda a proposição de um percurso histórico temático, que partisse de um possível problema contemporâneo na produção do espaço (estudos temáticos). Uma estrutura assim fixa e desatada, repetida ao longo de todo o processo de formação de um estudante, acaba por reforçar o mito do projeto arquitetônico como uma criação sem precedentes além de comprometer o desenvolvimento da pesquisa científica e o avanço deste campo do conhecimento. Considerando este cenário da pesquisa científica e do ensino de história da arte, da arquitetura e da cidade nos cursos de arquitetura, este projeto de pesquisa propõe investigar os vazios e falhas epistemológicas existentes nessa área no processo de formação de um arquiteto. O objetivo é evidenciar discussões teóricas sobre o assunto e, por meio da proposição de um método avaliativo, analisar os problemas existentes nas estruturas educacionais adotadas. A partir dessas análises pretende-se criar modelos de sistemas de formação do arquiteto urbanista nos quais o lugar ocupado pelo campo da história da arte, arquitetura e cidade seja mais legítimo e mais concordante com alguns pressupostos epistemológicos essenciais.

1. Problema

O ensino de história da arte, da arquitetura e da cidade, conforme os moldes que se dá hoje na maioria das Escolas de Arquitetura é marginalizado e marginalizante.

Ministrados cronologicamente numa estrutura disciplinar independente e autônoma, os cursos de história da arte e da arquitetura, dentro da formação de arquitetura e urbanismo, raras vezes estabelecem relações diretas com as demais atividades curriculares.

Essa estruturação é sintomática de uma postura já bastante disseminada, mas nunca assumida, quanto ao processo de projeto como um processo de criação original e sem precedentes. Essa noção de projeto como criação original e sem precedentes desvincula o objeto criado do passado, e isola-o do processo de acúmulo sistematizado no conhecimento histórico, no conhecimento do passado. Acrescentemos ainda que essa relação com a atividade projetual como uma criação sem precedentes pretende atribuir também um valor de ineditismo ao produto, no caso o produto intelectual, o projeto de arquitetura. Tal ineditismo, dentro de uma sociedade do espetáculo como a nossa, agrega valor simbólico a este produto e o torna, portanto, mais propício a uma boa aceitação. Em outra escala e contexto, é como atribuir maior valor de troca à nova geração de um produto e torná-lo mais atrativo ao consumo. Trata-se, infelizmente, da submissão da produção do conhecimento à lógica do consumo que determina as leis do mercado.

A partir do problema acima determinado, quais seriam, portanto, as falhas epistemológicas dentro dessas estruturas educacionais convencionais que isolam e desarticulam o campo da história da arquitetura? Como avaliar as estruturas educacionais vigentes de modo a analisar as falhas educacionais e epistemológicas nelas presente, no que toca a área de História da Arte, da Arquitetura e da Cidade? De que modo essa desarticulação da área de História e Teoria está relacionada como a dinâmica da sociedade do espetáculo em que vivemos ainda hoje? Quais possíveis modelos de dinâmicas educacionais que poderiam ser adotadas para corrigir essas falhas e promover a articulação desta área de conhecimento com o processo de formação do profissional dedicado a pensar o espaço?

2. Objetivos

O objetivo geral dessa pesquisa é propor modelos ou sistemas/dinâmicas educacionais alternativas às estruturas atuais vigentes, com foco no ensino da História da Arte, Arquitetura e Cidade, em cursos de formação de profissionais dedicados a pensar o espaço. Esses modelos serão propostos a partir de uma pesquisa das falhas conceituais, práticas e epistemológicas das estruturas curriculares contemporâneas por meio de um método de avaliação a ser desenvolvido durante a pesquisa.

Os objetivos secundários dessa pesquisa se divisam em: a) discutir o ensino das disciplinas de história em cursos que lidam com a produção técnica-artística em geral; b) discutir o lugar da história no processo de formação de um profissional dedicado a pensar e intervir no espaço (e gerar “bons” espaços).

3. Justificativa

Marginalizado e marginalizante, no sentido de que é ministrado cronologicamente numa estrutura disciplinar independente e autônoma, o ensino de história da arquitetura raras vezes estabelece relações diretas com as demais atividades curriculares. Essa estrutura, repetida ao longo de todo o processo de formação de profissionais dedicados a pensar o espaço e as intervenções realizadas nele, reduz a potencialidade transformadora presente no entendimento da atividade projetual como uma atividade que se relaciona com o passado e com o futuro para propor algo no presente. Isto é, sem essa perspectiva histórica visando à prospecção acaba por se consolidar a tendência de pensar o projeto como uma criação sem precedentes, que partiria de um suposto zero absoluto e que acaba por incutir no estudante um comportamento demiúrgico no qual é legítima a ignorância histórica das outras soluções espaciais já elaboradas.

Uma perspectiva histórica elaborada a partir de um tema não somente evitaria, por exemplo, o desperdício de energia intelectual ao estudante ou profissional tentar “arrombar portas abertas”, como legitima a compreensão da atividade de projeto como um processo de concepção cumulativa, em que cada novo projeto é muito mais um redesenho, preferencialmente inovador e inédito, do que um desenho absolutamente novo que parte do branco absoluto da folha de papel ou da tela do computador. Somente por meio dessa noção da atividade projetual seria possível sistematizar um novo lugar e uma nova organização para o ensino e a produção de conhecimento em História da Arquitetura.

(…) it can be argued that designers always start off where other designers (or they themselves) have left off, that design is about improving earlier products, and that designers are thereby linked, (…) to their own or their colleagues’ earlier solutions - and thus to yesterday. In other words, what the word design holds back is the entire co-operative and past-related dimension in designing that makes designers’ individual creative contributions possible.[1]

É tendo em vista o cenário atual da maioria das escolas e faculdades de arquitetura e urbanismo que este projeto de doutorado propõe estudar os processos de geração de conhecimento na área de História da Arte, da Arquitetura e da Cidade e investigar possíveis modelos de configuração desta área de saber no currículo dos cursos de Arquitetura. O objetivo é explorar soluções ou direcionamentos alternativos às falhas epistemológicas destes cursos, no que concerne a área de História especialmente. Essas falhas se constituem, dentro do modelo vigente, no isolamento excessivo das disciplinas dedicadas a essa área. Tal isolamento não deve ser confundido com autonomia e independência, afinal é necessário que esse saber seja autónomo e independente e que não seja instrumentalizado. Sim, o saber histórico não deve ser instrumentalizado, mas no processo de formação dos profissionais dedicados a pensar o espaço, ele deve ser minimamente “funcionário”, isto é, servir para que esses estudantes ou profissionais trabalhem numa perspectiva que equilibre a noção de originalidade com a noção de re-projeto, re-desenho. O estudante precisa ter claro para si que a atividade projetual trabalha no limite entre a criação original e o re-desenho, o re-projeto, isto é, o diálogo com o que já foi produzido antes, justamente para que o foco seja a produção de espaços habitáveis, de bons espaços, foco principal desse percurso de formação, entre cujos profissionais está o arquiteto. The students ought to be told that what counts is not whether a solution comes from others or themselves, but how good the final outcome is, seen from the user’s perspective.”[2]

O mito da originalidade absoluta incute ainda nos estudantes uma resistência quanto ao aprendizado de outras proposições, numa ingênua perspectiva de não impregnar suas ideias com a carga cumulativa da história, além de propiciar o crescimento de uma frustração frente ao objetivo não atingido, como acontece frequentemente. “[the students] continue to aim for unachievable goals in which originality based on the notion of creation from scratch is still one of the most persistent, while at the same time being pursued by a bad conscience for not having achieved them.”[3] Somada essa postura ao isolamento, ao não envolvimento e à desintegração quanto às demais atividades curriculares por parte das disciplinas dedicadas ao estudo da história da arquitetura, é recorrente a resistência que existe entre os estudantes com relação a essas disciplinas especialmente. Um problema que é agravado pelos próprios planos de curso dessas áreas, que tendem a ser organizados cronologicamente e dentro de uma perspectiva que apresenta as soluções espaciais como exclusivamente pertencentes ao passado e não como parte do presente, na condição de interlocutores.

However, the problem might also be that we design historians present historical objects and their stories as belonging to the past rather than as a part of the present. A way of tackling this problem might well be to make physical products a more central part of the teaching of design history (this presupposes establishing of pedagogical design collections) and with the help of methods such as “reverse engineering analyses” or “artefact hermeneutics” demonstrate the historical structure of the objects and reveal their various layers of intention.[4]

É urgente, portanto, que determinadas posturas sejam revisadas, tanto por parte dos estudantes, mas especialmente por parte dos profissionais de ensino que pretendem contribuir no processo de formação de profissionais dedicados a pensar e a conceber os espaços nas suas diferentes escalas. Primeiramente, é preciso rever essa noção da atividade projetual, desvinculá-la da noção de criação sem precedentes, que não se contamina do processo cumulativo que a antecede. Para reabilitar o lugar do passado, é necessário concomitantemente rever e reavaliar o modelo segundo o qual esse passado é colocado aos estudantes. Trata-se, portanto, de duas frentes de ação, uma dependente da outra: uma que toca uma ideia subliminar à atividade de pensar e conceber espaços, seja prática ou teoricamente, a qual poderíamos chamar de reprojeto[5]; outra, que é aquela concernente à geração do conhecimento fomentada e possibilitada nas disciplinas de História da Arquitetura. Esta última frente de ação, que chamaríamos integração, visa a discutir aspectos epistemológicos da geração de conhecimento nas áreas de História da Arquitetura, com o objetivo de modificar o modelo vigente e lançar novos modelos mais compatíveis com a ideia de produção de conhecimento científico nessa área.

4. Caminhos metodológicos

O processo de pesquisa consistirá, num primeiro momento, numa revisão bibliográfica dos principais textos sobre epistemologia, sobre produção, geração e divulgação do conhecimento. Para tanto, o foco estará sobre determinados autores fundamentais, como Hegel, Rubem Alves, Karl Popper. Por meio dessas leituras, será possível criar um arcabouço crítico intelectual necessário para analisar os fundamentos conceituais de estruturas educacionais de formação do arquiteto.

Com esse arcabouço crítico é que será possível criar um método de avaliação dos sistemas que regem o processo de formação do arquiteto considerando o enfoque do lugar da história da arquitetura nesse processo. Este método de avaliação consiste, portanto, numa ferramenta essencial para constatar a existência do problema, e também para percorrê-lo, no sentido de levantar as variáveis todas implicadas nessa constatação. A avaliação do problema contém necessariamente dentro dela os princípios para elaboração de encaminhamentos possíveis de dinâmicas educacionais alternativas para os modelos educacionais em análise. Para realização desse segundo momento da pesquisa, serão elencados os padrões de estrutura educacional dos centros de formação em arquitetura que têm maior destaque. Serão reunidos centros de formação ao redor de todo o mundo, tendo em vista que este não é um problema que se resume ao cenário brasileiro, mas que se estende em diversas escolas e faculdades de arquitetura. Os critérios para seleção destes sistemas educacionais serão baseados justamente na excelência da produção técnica e intelectual por eles agenciadas.

Nesse sentido, um terceiro momento da pesquisa consistirá na elaboração de sistemas de formação ou modelos de formação em arquitetura que trabalhem, no que tange a história da arquitetura, na correção de equívocos encontrados na fase de análise dos padrões existentes por meio do método de avaliação sugerido. Esses modelos propositivos visam justamente a corrigir as falhas ou fissuras epistemológicas, particularmente no ensino da história da arquitetura, que existem nas estruturas educacionais convencionais. No entanto, não se trata da elaboração de modelos fechados a serem implantados em qualquer contexto. Ao contrário, esses modelos são princípios organizacionais basilares para um sistema de formação do arquiteto no qual esteja legitimado e articulado o estudo da história da aquitetura.

5. Referências bibliográficas

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[1] MICHL, Jan. Design as redesign. Em http://www.designaddcit.com/essais/michl.html. Acessado em 08/05/2011.

[2] Op. Cit.

[3] Op. Cit.

[4] Op. Cit.

[5] Em seu texto, Jan Michl trabalha a noção de design como redesign. O autor tenta, com essa nova nomenclatura, chamar atenção a determinados aspectos como a ideia de acúmulo, e portanto do diálogo com as soluções precedentes, isto é, com o passado, a história, que está presente na atividade do design, mas é frequentemente ignorada em termos práticos. Tomando este texto como referência propomos a noção de reprojeto (refazenda) para estimular essa interlocução entre passado e presente.

 


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Arquitectos Jorge Harris y Carolina Harris

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